
Queria ser Otelo, dedilhando a lira dos amores perdidos.
Ser um ator grego narrando uma odisséia.
Coletar fatos, unir pontos, desvendar homicídios.
Cantar feito Lady Day, usando sua voz branda e ácida.
Criar asas e voar para morrer ao sol.
Anotar poemas em guardanapos de um boteco sujo no centro da urbe.
Ser um farol aclarando marinheiros para suas amadas em portos dispare.
E, no entanto, sou apenas aquele que você sonha e não quer tocar.
A música que conduz aos infernos de Dante.
O ator de uma comedia medíocre, o detetive que apenas encontrou alguma pista na sala mostarda.
Uma cantora em tons pastéis, nem quente e nem fria, apenas sem indulto.
A copia da copia de algo sagaz.
A pequena lâmpada que ilumina sua árvore e que insiste em queimar na noite de natal.
Como ser algo grande mesmo não sendo o que jamais fui o que você escolheu para amar.
Garotos sangram por dentro, o que nos faz mais infelizes do que garotas.
Expurgando sangue de muralhas, aos poucos suas tristezas se esvaem.
E nós, que ficamos olhando cada gota de dor sendo acumulada num vão chamada imo.
Vangloriando a arte de chorar pelos cantos.
Sofremos mudos.