quinta-feira, 30 de abril de 2009

Fotos...


Quero fotos num banco de praça, ou simplesmente na sorveteira da esquina. Uma foto em um corredor de supermercado. Numa festa surpresa feita por você. Num quintal de folhas secas. Usando gorro e luvas de lã ou bermuda e chinelo. Só queria que fosse simples, feito polaroid.

ORFEU TE GUIE...


Existem cais, as rotas de fuga... Os ventos.
A razão para navegar, as ondas... As velas.
Espuma, oceano... Arquipélagos.
Mas como Andrômeda, fluxos anteparam meu corpo de seguir viagem.
Possuo a chave que me solta das correntes, e ainda me permito recusar a alvedrio.
Prefiro virar estátua de sal, sempre olho para trás.
Escolho ser devorado por gaivotas, exijo o labirinto da besta.
Não carrego escudo Ateniense, nem mesmo lanças.
Sou virgem nascida para o sacrifício.
Sou e me recolho ao acaso, das estrelas foi retirada minha vontade.
E que assim seja.
Sucumbir ao fardo fato de amar. De recolher a bondade ausente. Ignorar os sinais dos oráculos e sempre se atrelar ao cálice que já se esvaiu como azeite alastrado no pó.
A figura de um Jasão vencedor trazendo o velo de ouro não se atem a minha existência. Estou mais para a ida de Perséfone ao inferno, recebendo conforto nos braços de Hades.
Quem sabe um dia não cunho as estações do ano, nas qual posso abster de coexistir na invernia das lembranças.
Meu cerne ainda hoje é vigiado por Cérbero. E no Aqueronte só navega um barco.
Orfeu que te guie.
Salve-me.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

APENAS GAROTOS SANGRAM


Queria ser Otelo, dedilhando a lira dos amores perdidos.
Ser um ator grego narrando uma odisséia.
Coletar fatos, unir pontos, desvendar homicídios.
Cantar feito Lady Day, usando sua voz branda e ácida.
Criar asas e voar para morrer ao sol.
Anotar poemas em guardanapos de um boteco sujo no centro da urbe.
Ser um farol aclarando marinheiros para suas amadas em portos dispare.
E, no entanto, sou apenas aquele que você sonha e não quer tocar.
A música que conduz aos infernos de Dante.
O ator de uma comedia medíocre, o detetive que apenas encontrou alguma pista na sala mostarda.
Uma cantora em tons pastéis, nem quente e nem fria, apenas sem indulto.
A copia da copia de algo sagaz.
A pequena lâmpada que ilumina sua árvore e que insiste em queimar na noite de natal.
Como ser algo grande mesmo não sendo o que jamais fui o que você escolheu para amar.
Garotos sangram por dentro, o que nos faz mais infelizes do que garotas.
Expurgando sangue de muralhas, aos poucos suas tristezas se esvaem.
E nós, que ficamos olhando cada gota de dor sendo acumulada num vão chamada imo.
Vangloriando a arte de chorar pelos cantos.
Sofremos mudos.

ANOS E SEGUNDOS.


Faz tempo que acredito
A barreira de vidro que existia se quebrou
E notável foi o esforço para que mantivessem em pé
Mas após a queda, o que restou?
Envoltos em lembranças, os planos que fizemos se guardaram em caixas de papelão.
Joguetes de olhares, aquela menção ao nome da voz que cantava o nosso amor.
Faz de todos nossos juizes e testemunhas, todos olham pra algo que deveria estar unido e por alguma razão estranha não está.
Levam-se anos para esquecer e segundos para recordar. Como alguém tem em mão aquilo que um dia foi seu? Não de posse, pois nunca teria algo tão valioso assim, mas que pertencia a algo muito mais nobre. O sentimento inventado pelos românticos do século XVIII, que foi tão judiado por nós, os réus.
Feroz e impetuoso, roupas largadas no chão.
Tudo atado a nós imaginários, presos pela inveja alheia.
Acordo e penso se não seria melhor gritar na cara dos juizes que deles não sobra nem as vergonhas.
E que de mim, saem flores e abelhas.
De tão importante que você foi pra mim.
Ou é.